A
RELIGIOSIDADE ONTEM E HOJE
Artigo produzido pelo professor Mario Antonio Betiato para as aulas Cultura Religiosa
Para salvar este artigo em seu computador clique aqui.
1. O ser humano é religioso
Quando afirmamos que ser humano é também ser religioso, queremos dizer que a abertura para o mistério, para aquilo que ultrapassa o imediato é básica na nossa existência. O ser humano, historicamente, de maneiras diversas, no tempo e no espaço, sempre se situou afirmativamente com relação ao Transcendente. Espantado diante da complexidade do real, da vida, da natureza, o ser humano lança-se em busca do Absoluto, daquilo que está além das aparências, do contingente, do efêmero. O ser humano vive com sede de eternidade, sede daquilo que extrapola os limites do concreto da existência e, então, torna-se religioso de maneiras diferentes, na história e nos lugares diversos, dependendo de cada cultura.
Devemos afirmar, então, que o ser humano possui religiosidade assim como possui sexualidade, ou o gosto pela música. Se a analogia for válida, poderemos então distinguir, comparativamente, a sexualidade que é um dado universal, e a maneira com que cada povo, cada cultura vive concretamente a sexualidade. Se optarmos pela analogia da música, poderemos facilmente perceber que a musicalidade é de todos, e as tendências musicais, os ritmos, as melodias são diferentes em culturas, épocas e lugares distintos. Assim o é com relação à religiosidade.
2. Religiosidade nos povos da Pré-História
Os povos da Pré-História, nossos ancestrais, não nos deixaram, naturalmente, documentos escritos, nem depoimentos, dado às circunstâncias da vida naqueles tempos. Todavia, temos deles algumas provas arquitetônicas com algumas construções como os túmulos e pinturas nas pedras e nas cavernas. Estes documentos arquitetônicos levaram a Antropologia a concluir que aqueles povos possuíam religiosidade e que buscavam Transcendência à sua maneira. Um dos exemplos é que alguns povos enterravam seus mortos em vasos de argila, com os membros encolhidos, em forma de embrião. Esta atitude nos revela a crença deles na vida após a morte, pois, esta maneira de proceder, diante do sepultamento, mostra que a pessoa, uma vez findada sua vida terrena, vai para uma outra dimensão, tornando-se criança, para recomeçar a viver novamente.
A Antropologia nos revela, também, que em épocas e circunstâncias diferentes, na Pré-História ou na História, em povos que sobreviviam da agricultura, os ritos mudavam, obedecendo aos ciclos da vida: nascimento, crescimento, procriação e morte. Como eles percebiam que as sementes nasciam, tinham seu ciclo de procriação, desenvolvimento e, por fim, voltavam a ser sementes novamente, para renascer; assim também o ser humano, morrendo, ressuscitava numa outra dimensão, como acontecia com a natureza na agricultura.
A sobrevivência, às vezes fácil, às vezes difícil, é sempre um elemento fundamental para o ser humano. A natureza precisa ser entendida, enfrentada, dominada, e a relação homem-natureza, na história, nem sempre foi pacífica. E para a relação com a natureza ser mais dócil, mais fraterna, o ser humano então criou ritos, cultos, que, por vezes, parecem até extravagantes e cruéis. Existiram e ainda existem épocas e povos em que o politeísmo é extremo, com cultos a inúmeros deuses, um deus para cada elemento importante da sobrevivência: um deus da sexualidade, um deus que regula os ciclos das plantações, deuses da natureza desconhecida como trovões, tempestades e fogo.
Entretanto, a grande preocupação do ser humano, não somente na pré-história mas em todas as épocas da história, foi e será sempre o problema do mal. Como entender o sofrimento? A morte? As “desgraças”? As tragédias? A dominação de uns sobre os outros? Para cada época e cultura existe uma resposta diferente para esta problemática. Nossos ancestrais criaram cultos para afugentarem o mal. Cultos estranhos à nossa cultura, nos quais se ofereciam vítimas aos deuses e, não raro, vítimas humanas. Cultos e ritos para aplacarem a ira dos deuses, ou para afugentarem o mal, o opositor ao bem, à ordem. Há que se entender que hoje também existem rituais semelhantes, celebrados secretamente, e estes são práticas que vão contra a Ética da sociedade moderna.
Para esses cultos, era necessário um especialista em ritos e cultos. Surge então o Xamã, houve a época do Xamanismo. O Xamã era e é a pessoa que se apropria de técnicas para o culto como: o canto, tambores, o fetiche com ossos, etc. Na História, ele foi também o curandeiro, o feiticeiro, o pajé, o sacerdote, enfim, o intermediário entre as situações vividas pelas pessoas e o universo invisível de todas as divindades.
Situações dessa natureza poderão ser estudadas não somente na História ou Antropologia, mas também nos livros sagrados mais antigos, quer na Bíblia, quer nos livros do Hinduísmo e outros, onde aparecem situações de cultos, considerados hoje extravagantes, para a comunicação com divindades ou para afugentarem o mal.
De qualquer maneira, nossos antepassados, nas religiões, sempre estiveram abertos para o Transcendente, tendo, em decorrência, uma elevada moral, principalmente no que se refere ao roubo, ao assassinato e ao adultério.
Nos dias atuais, algumas tribos da África, da Índia e também do Brasil possuem características semelhantes: divindades ligadas à natureza, cultos e ritos ( muito diferentes, se comparados às grandes religiões instituídas), religiosidade, e uma Ética que tem como fundamento a busca do Transcendente, do Absoluto, daquilo que está além das aparências. Alguns os qualificam, por isso, de primitivos, o que no nosso modo de entender, pode ser falacioso, porque eles são povos diferentes, de cultura ligada à natureza e por isto seus ritos e sua religiosidade adquirem sentido a partir da natureza onde eles vivem.
3. Religiosidade no paradigma moderno cientificista
Com o advento da Ciência moderna ocidental, que hoje coordena praticamente todas as esferas da existência, nos últimos séculos, o sentido das coisas passou a ser a experiência empírica, aquilo que é quantificável, medido. Com isso, a humanidade perdeu muito a sensibilidade pelo universal ou, se quisermos, a religiosidade deixou de se situar na esfera da metafísica, do transcendente, e o sentido último das coisas começou a ser buscado no universo da Ciência, no Racionalismo.
A educação e principalmente a Universidade que formou os professores que hoje atuam em nossas escolas, afogadas na concepção positivista e racionalista, deu respostas para perguntas muito simplistas, muito imediatas. Respostas utilitaristas para um mundo centrado no utilitarismo, deixando a reflexão sobre o transcendente exclusivamente para as religiões e igrejas.
Esta concepção, que chamamos de cientificista, tentou ignorar a transcendência, a religiosidade, o mistério, a plenitude da existência. Isto tudo gerou uma crise a que os pensadores chamam de crise da modernidade.
Ao ignorar a Transcendência, a Ciência moderna racionalista não respondeu ao desafio da dimensão religiosa do ser humano. Atualmente, na pós-modernidade, a experiência religiosa, então, volta por conta própria, de maneira impetuosa e, em alguns casos, até ameaçadora, pois, para o homem contemporâneo, não bastam mais as respostas seguras da Ciência experimental, quando as perguntas continuam sendo de cunho existencial.
Com base na Ciência moderna e na filosofia positivista, a humanidade avançou assustadoramente em tecnologia, no saber utilitário e prático, e quando nos deparamos com tantas conquistas, estas até nos causam espanto. No entanto, este “progresso” não está sendo sinônimo de bem-estar para todos. Ao contrário, a porção da humanidade que abraçou esta concepção, calcada quase que exclusivamente no cientificismo, em muitos aspectos regrediu do ponto de vista da marcha para a felicidade.
A modernidade, por exemplo, nos presenteou (presenteou?) com banheiras de hidromassagem ao mesmo tempo em que matou, com poluição e agro-tóxicos, os rios e riachos cristalinos, onde nossos avós se banhavam junto aos peixes.
Uma questão para um grande debate no mundo da escola poderia ser a seguinte: em que aspectos a humanidade progrediu e em que aspectos regrediu, na modernidade, tendo como referencial a felicidade humana?
4. A religiosidade hoje e suas manifestações nem sempre libertadoras
A religiosidade atualmente está em alta, porém um tanto doente. Existem experiências religiosas das mais diversas, que vão desde atitudes extremistas que levam para a morte, passando pelo mundo das drogas, do consumismo, do esoterismo, que não leva em consideração a vida, até as “profecias” de final dos tempos, amuletos, crenças em gnomos, anjos, búzios, tarô, aparições de imagens de santos e santas, guerras religiosas, etc. Algumas manifestações religiosas possuem até um tom brutal, violento.
Esta realidade nos deve remeter a duas grandes reflexões: o papel das igrejas históricas como instrumentos para dar conta da religiosidade, e a identidade da filosofia moderna e contemporânea, calcada no racionalismo exacerbado.
O fato é que as nossas religiões históricas, no Ocidente mais precisamente o Cristianismo, com suas igrejas diversas, estão tendo uma certa dificuldade em responder aos reais anseios de religiosidade que brotam de multidões, que procuram respostas seguras que não chegam de nenhuma parte. Existe um clamor surdo pela Transcendência e este clamor é abafado pelo racionalismo cientificista de costas viradas para o mistério, para a mística e do qual até as religiões e igrejas são vítimas.
As doutrinas religiosas demasiadamente dogmáticas, principalmente no mundo monoteista ocidental, não estão sendo capazes de situar o ser humano dentro do cosmos, da Transcendência. O Absoluto, Deus, por não ser uma realidade empírica, mensurável, científica, não ganhou espaço no racionalismo e, agora, este mesmo Deus, na religiosidade popular, entra pela chaminé, muitas vezes de maneira totalmente irracional. Nesta crise existencial, a humanidade busca os fetiches para preencher um vazio que somente uma autêntica experiência religiosa poderá dar conta.
Nesse sentido, podemos afirmar que a fuga da juventude para o mundo das drogas é uma busca de transcendência em lugares errados; uma torcida organizada, sem limites para a violência, o vandalismo, é a busca desesperada de um transcendência perdida. Nietsche já dizia no começo do século: “Deus está morto”. É neste universo da morte de Deus que podemos elencar seus substitutos, os ídolos como: a pornografia, o consumismo desenfreado, a ânsia compulsiva de comprar coisas e mais coisas que nunca satisfazem, os esportes radicais, os “modismos” que são programados de acordo com a vontade dos empresários de vendas, que tiram proveito deste momento de crise humana, tudo isto é uma “religiosidade” doente, mal trabalhada, distorcida, alienada da sua verdadeira essência.
Para salvar este artigo em seu computador clique aqui.
Principais palavras relacionadas: Universos, Planeta terra, imagens da terra, globo, Oração do papa, oração cristã, oração santa, oração de nossa senhora, faculdade de teologia, teologia bíblica, teologia sistemática, mensagem de Deus, Teologia no Brasil, Filosofia política, Livros da bíblia, Estudos Bíblicos, Evangelho de Lucas, evangelho de marcos, teologia pastoral,etc
errado