EVANGELHOS SINÓTICOS

Texto  professor  JOAQUIM CARDOSO DE OLIVEIRA para as aulas de Teologia e Cultura Religiosa PUCPR

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO

EVANGELHOS SINÓTICOS

 MATEUS = MARCOS = LUCAS

  ORGANIZAÇÃO:

PROF. JOAQUIM CARDOSO DE OLIVEIRA  

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Curitiba - 2006 

Visão esquemática 

1 - Introdução

            1.1 - Cronologia

                         1.1.1 - Antigo Testamento

                         1.1.2 - Novo Testamento

             1.2 - Antigo e Novo ?

             1.3 - Testamento ou Aliança?

             1.4 - Sincronia: Primeira e Segunda Aliança

            1.5 - A “coleção” dos Livros do Novo Testamento

 2 - Conceitos

            2.1 - Evangelho

                         2.1.1 - No Antigo Testamento

                         2.1.2 - No Mundo Grego

                         2.1.3 - No Novo Testamento

                         2.1.4 - Conclusão

             2.2 - Sinótico

                         2.2.1 - Sinóticos – semelhanças

                         2.2.2 - Sinóticos – diferenças

 3 - O Evangelho Segundo Marcos

             3.1 - Autor

             3.2 - Data de redação

             3.3 - Destinatários

             3.4 - Visão Geral

             3.5 - Alguns Aspectos Literários

                         3.5.1 - A Humanidade de Jesus

                         3.5.2 - O Segredo Messiânico

                         3.5.3 - Aparições de Jesus Ressuscitado

 4 - O Evangelho Segundo Mateus

             4.1 - Autor

             4.2 - Data de redação

             4.3 - Destinatários

             4.4 - Visão Geral

             4.5 - Alguns Aspectos Literários

                         4.5.1 - Genelaogia

                         4.5.2 - Jesus: novo Moisés

                         4.5.3 - Jesus:: a Lei e os Profetas

                         4.5.4 - Jesus: o Deus-Conosco

                         4.5.5 - O Reino dos Céus

                         4.5.6 - A “Eklesia”

  5- O Evangelho Segundo Lucas

             5.1 - Autor

             5.2 - Data de redação

             5.3 - Destinatários

             5.4 - Exclusividade de Lucas

             5.5 - Visão Geral

             5.6 - Alguns Aspectos Literários

                         5.6.1 - História Bíblica e História Universal

                         5.6.2 - Atitudes Opostas

                         5.6.3 - Expectativa ou Curiosidade

                         5.6.4 - A Geografia da Palestina

                         5.6.5 - Supressões de Repetições

                         5.6.6 - Relação com Judaísmo

             5.7 - Alguns Temas

                         5.7.1 - O Espírito Santo

                         5.7.2 - A Pregação Inicial de Jesus

                         5.7.3 - A Alegria

                         5.7.4 - O Universalismo da Salvação

  6- Evangelistas e Símbolos

  7- Referências Bibliográficas

1 - Introdução

 A Bíblia – Escritura Sagrada para os cristãos – é dividida em dois grandes blocos: O Antigo e Novo Testamento.

            Os Evangelhos Sinóticos estão contidos no Novo Testamento. 

1.1 - Cronologia: composição dos Livros Bíblicos 

            Os textos bíblicos tiveram um longo período de composição, não foram escritos de uma só vez e é obra de vários autores humanos, todos inspirados por Deus, que é o Autor Divino. 

1.1.1 - Antigo Testamento 

            A grande primeira parte da Bíblia chama-se Antigo Testamento (Primeira Aliança) e é a parte de maior tempo de composição, tendo inicialmente uma tradição oral e posteriormente esta tradição oral passou a ser escrita. Assim temos: 

Abrangência histórica[1]:       18 séculos – A partir de Gn 12,1, começa a história da Revelação com a história do povo de Israel onde ocorre a eleição – escolha – de Abraão (aproximadamente ano 1.800 a.C.). Entre o século XVIII a.C. até o século XI a.C. temos o período oral da Escritura Sagrada, ainda não havia texto escrito. 

Abrangência literária:         A partir do séc. XI Israel começa a escrever sua história, colocar por escrito, inicia-se a fase redacional. Este período de inicio de redação começa sob à fase da monarquia (Saul, Davi e Salomão). 

A fase de redação dos Livros do  Antigo Testamento (46 livros) compreende um período de 11 a 12 séculos. 

1.1.2 - Novo Testamento 

            O Novo Testamento (Segunda Aliança) também tem duas fases distintas: 

Abrangência histórica:        É o período que compreende a vida e pregação de Jesus até a morte do último apóstolo (João Evangelista, que é atribuída por volta do ano 100 de nossa era.) 

Abrangência literária:          É o tempo em que se levou para escrever os 27 livros do Novo Testamento. Este período vai do ano 51 d.C. até por volta do ano 100 d.C.. 

            Os escritos neotestamentários podem ser distribuídos da seguinte forma: 

            Cartas de Paulo:                 do ano 51 d.C. até o ano 63 d.C. 

            Evangelhos Sinóticos:          Marcos – ano 65 d.C; Mateus e Lucas – entre anos 70-80 d.C. 

Cartas Católicas:               1ª, 2ª e 3ª Carta de João[2], Carta de Tiago, de Judas e a 1ª e 2ª Carta de Pedro – entre os anos 80-90 d.C. 

Escritos joaninos:               Evangelho de João e Apocalipse e as cartas católicas joaninas – entre os anos 90-100 d.C. 

            Nota-se que os Evangelhos (segundo Mateus, Marcos Lucas e João) encontram-se na parte da Bíblia que se chama Novo Testamento, mas se fazem necessárias algumas considerações preliminares. 

1.2 - Antigo e Novo? 

A terminologia que se tem hoje para denominar as duas grandes partes do Livro Sagrado traz em seu bojo algumas questões que devem ser esclarecidas.

Na sociedade hodierna ocidental há um problema depreciativo quanto à palavra “antigo” dando a idéia de ultrapassado, antiquado, retrógrado, etc.. Na Teologia Bíblica muitos teólogos propõem a utilização dos termos “primeira”  e “segunda” para se referir ao “antigo” e “novo” e “aliança” ao invés de “testamento”. Assim, temos a Primeira Aliança para nos referir ao Antigo Testamento e a Segunda Aliança para nos referir ao Novo Testamento.

A Primeira Aliança e a Segunda Aliança não se opõem e nem se excluem, ao contrário há uma interação dialética, há uma complementaridade entre as duas grandes partes da Bíblia. O próprio Jesus afirma: “Eu não vim abolir a Lei, mas dar pleno cumprimento dela”.

A Bíblia, Palavra de Deus revelada, é sempre atual. 

1.3 - Testamento ou Aliança? 

            No século IV d.C. o Papa São Dâmaso (pontificado de 366 – 384 d.C.) pede para seu secretário São Jerônimo (347? – 419 d.C.)[3] compilar uma única versão latina para a Bíblia, pois havia muitas versões no vernáculo latino.

Jerônimo faz esta nova versão que passa a se chamar Vulgata. Para executar este trabalho São Jerônimo abandonou os textos latinos existentes e traduziu direto do grego para o latim. Ora, na língua grega a palavra para se referir a testamento é “diatheke”(diatheke) que tem duas possíveis traduções: “aliança” e “testamento”.

            São Jerônimo adotou o termo grego e traduziu para o latim como “testamentum”.

            A palavra grega diatheke vem da tradução da palavra hebraica “berit”, que significa “aliança”[4].

            A Teologia Bíblica dá ênfase a palavra “aliança” por entender que traz a idéia dinâmica de relação entre duas partes, entre duas pessoas e a palavra testamento pode dar a idéia restritiva de um documento apenas jurídico.

            Em toda a Bíblia temos inúmeros exemplos de Deus fazendo alianças com o gênero humano (Noé, Abraão, Moisés, Davi, Jesus, etc.).

            O estudioso André Chouraqui coloca em seu comentário a Gn 9,11: “O pacto supõe uma escolha, uma acordo fundamental entre as partes que reúne.”[5]

            A aliança tem um caráter relacional. É necessária uma resposta do ser humano à proposta de Deus. Assim, ao adotar a palavra “aliança” ao invés de “testamento” a Teologia Bíblica quer salientar esta realidade relacional entre Deus e o gênero humano. 

1.4 - Sincronia entre a Primeira Aliança (Antigo Testamento) e a Segunda Aliança (Novo Testamento) 

            Importante notar que há uma sincronia, uma harmonia, entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento, onde um não exclui o outro, mas complementam-se.

            O Antigo Testamento prepara o “evento” Jesus e o Novo Testamento explica este “evento”.

Toda a Bíblia é importante. Acontece que às vezes os católicos dão maior relevância, e conhecem mais, o Novo Testamento em detrimento ao Antigo Testamento.

O próprio Jesus dá este valor ao texto vetero-testamentário.

 

  O que Jesus vem revelar é aquilo que as pessoas haviam esquecido que é o amor de Deus, a aliança que Javé havia feito com os pais do povo israelita. Com o tempo o povo judeu, principalmente os dirigentes do povo, haviam deturpado a Palavra de Deus caindo no legalismo, no ritualismo.

O Jesus histórico era uma pessoa que conhecia bem a sua religião – o judaísmo –, sua Bíblia e Ele mesmo falou da importância da Bíblia Hebraica: 

“Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas cumprir.” Mt 5,17. 

“É mais fácil passar céu e terra do que uma só vírgula cair da Lei”[6]. Lc 16,17.  

Quando Jesus se refere à Lei e aos Profetas ele está se referindo à Bíblia Hebraica que tem três partes: a Lei (Torá), os Profetas (Nebiim) e os Escritos (Ketuvim) – o conjunto chama-se TaNaK[7]

Para exemplifica esta sincronia entre a Primeira Aliança (Antigo Testamento) e a Segunda Aliança (Novo Testamento) pode-se observar o mandamento de amor ao próximo, que aparece primeiro no texto vetero-testamentário e posteriormente no neotestamentário. 

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” Lv 19,18b = Mt 19,19b. 

1.5 - A “coleção” dos Livros do Novo Testamento. 

            O Novo Testamento tem 27 livros e são agrupados da seguinte forma: 

Livros históricos[8]:    Evangelhos de Mateus (Mt); Marcos (Mc); Lucas (Lc); João (Jo) e o Livro dos Atos dos Apóstolos (At). 

            Livros didáticos[9]:    Cartas de Paulo: 

a) Dirigidas à comunidades: Romanos (Rm); 1ª e 2ª aos Coríntios (1 Cor e 2 Cor); Gálatas (Gl); Efésios (Ef); Filipenses (Fl); Colossenses (Cl); 1ª e 2ª Tessalonicenses[10]  (1 Ts e 2Ts).                                              

b) Dirigidas a pessoas: 1ª e 2ª Timóteo[11] (1 Tm e 2 Tm); Tito (Tt) e Filêmon (Fm). 

c) Carta aos Hebreus[12] (Hb). 

Livros católicos[13]:   Tiago (Tg); 1ª e 2ª Pedro (1 Pd e 2 Pd); 1ª, 2ª e 3ª João (1Jo, 2 Jo e 3 Jo) e Judas (Jd). 

            Livro profético[14] Apocalipse (Ap.)

 2 - Conceitos 

            É comum em nossos dias abordarmos os mais variados temas e assuntos – laicos, eclesiásticos, escriturísticos, etc. – tendo uma idéia conceitual retirada daquilo que se chama de “senso comum”. Não poucas vezes somos traídos por este simplismo conceitual. Desta forma abordaremos inicialmente conceitos de “evangelho” e “sinótico” para uma correta colocação destes mesmos termos. 

2.1 - Evangelho 

            A palavra “evangelho” não é um termo exclusivo do Novo Testamento e já aparece no Antigo Testamento e também no mundo grego. 

2.1.1 - No Antigo Testamento (Primeira Aliança) 

            No Antigo Testamento temos dois destaques importantes para falarmos da palavra “evangelho”: 

A.)               Aparece nos Livros que chamamos de Históricos – Josué (Js); Juízes (Jz); 1º e 2º Reis(1Rs e 2 Rs) e 1º e 2º Samuel (1 Sm e 2 Sm) – e fala sobre boa notícia sendo a vitória sobre os inimigos. Desta forma já denota sempre conotação positiva, nunca negativa. 

B.)              Profeta Isaías: No Livro do Profeta Isaías a palavra evangelho refere-se a salvação futura, que é sinônimo da vinda do futuro Messias. Esta idéia de boa notícia aparece a partir do capítulo 40 e segue até o final do Livro no capítulo 66. 

Por que a palavra evangelho – boa notícia – aparece só após o capítulo 40?

Para responder esta questão é necessário saber que o do Livro do Profeta Isaías está dividido em três partes: 

a)      Primeira Parte: Is 1 – 40; estes capítulos  correspondem ao período em que o profeta Isaías viveu e atuou; corresponde ao século VIII a.C..

b)      Segunda Parte: Is 41 – 55; estes capítulos não são de Isaías, mas de um provável discípulo do profeta, ou de uma “escola” profética com a linha de pensamento, linha teológica do profeta Isaías; corresponde ao período do Exílio da Babilônia (aproximadamente 587 a.C. até 530 a.C.; século VI a.C.); neste bloco literário que se encontram os 4 Cânticos do Servo Sofredor.

c)      Terceira Parte: Is 56 – 66; estes escritos correspondem à fase depois do Exílio da Babilônia. 

Inicialmente o profeta Isaías tem a preocupação de alertar o Povo Eleito – Israel e Judá – sobre os desvios que a nação estava incorrendo, rompendo assim a Aliança que Deus havia proposto. Após a experiência da deportação e permanência no exílio o que importa é encorajar o povo. Portanto, a mensagem de esperança – a “boa notícia” – é que haverá dias melhores. Isto é próprio deste tempo de exílio, um tempo de sofrimento. Neste contexto já não se fala de julgamento, castigo, etc., mas Isaías fala da vinda do Messias, de salvação, etc. São palavras de “boa nova” para o povo que precisa de encorajamento: 

Is 60,6:            “Uma horda de camelos te inundará, os camelinhos de Madiã e Efá; todos virão de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando os louvores de Iahweh.” 

Is 61,1:            “O Espírito do Senhor Iahweh está sobre mim, porque Iahweh me ungiu; enviou-me a anunciar a boa nova[15] aos pobres, a curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos,”[16] 

Assim, diferente dos Livros Históricos supra citados, quando a “boa nova” era sempre de vitória sobre os inimigos, em Isaías a “boa notícia” reveste-se de um matiz religioso falando de salvação e da vinda de um Messias. 

2.1.2 - No mundo grego 

            A etimologia da palavra, que tem origem grega, nos explica:

 

            Na cultura helênica não se fala de algo futurístico, vinda de messias; não se encontra um sentido que remeta a uma conotação religiosa, é simplesmente qualquer boa notícia, podendo ter três possibilidades: 

A)                 Significado de GORJETA: pequena gratificação àquele por transmitir uma notícia. 

B)                Significa a noticia em si, mas sempre se tratando de NOTÍCIAS BOAS. 

C)                Sinônimo de PROSPERIDADE, bem estar. 

2.1.3 - No Novo Testamento 

            Encontramos duas idéias básicas para o termo “evangelho” no Novo Testamento: 

A)        Nas Cartas Paulinas:             Evangelho é sempre algo que produz nova vida; o Evangelho é uma força ativa e operante no ser humano: 

“Na verdade, eu não me envergonho do evangelho: ele é força de Deus para a salvação de todo aquele que crê, em primeiro lugar do judeu, mas também do grego. Porque nele a justiça de Deus se revela da fé para a fé, conforme está escrito: O justo viverá da fé.” Rm 1,16-17. 

“Com efeito, ainda que tivésseis dez mil pedagogos em Cristo, não teríeis muitos pais, pois fui eu quem pelo Evangelho vos gerou em Cristo Jesus.” 1 Cor 4,15. 

B)        No evangelho de João:          O termo evangelho tem sempre o caráter de testemunho. Este testemunho é a vida pratica do fiel, que deve anunciar o evangelho mais pelas atitudes, pela vida, do que pela simples palavra. Neste sentido é que no Evangelho de João, não há um relato similar aos evangelhos sinóticos para a instituição da eucaristia, mas o escrito joanino apresenta o relato do lava-pés (Jo 13,1-15), sinal do serviço mútuo que deve existir sempre na comunidade cristã. 

2.1.4 - Conclusões 

            A)        O que é evangelho?

                        A encarnação do Filho de Deus;

                        Um Deus que se encarnou;

                        Um Deus que veio nos visitar e morar no meio de nós (Jo 1,14).

 

            B)        Qual o conteúdo do termo evangelho?

                        Deus interveio de forma definitiva;

                        Deus interveio através de Jesus Cristo;

                        Deus interveio para a salvação da humanidade;

A encarnação de Deus – Jesus Cristo – é a prova máxima do amor de Deus pelo gênero humano. 

2.2 - Sinótico 

            A palavra sinótico é utilizada para se referir aos Evangelhos Segundo Marcos, Mateus e Lucas, onde se encontra grande semelhança – daí o uso deste termo grego. Mas, desde quando é utilizado tal termo para estes Evangelhos? 

            Benito Marconcini[17], em seu livro “Os Evangelhos Sinóticos – Formaçao, Redação e Teologia”, esclarece: 

“O nome ‘sinótico’ foi dado aos escritos dos três primeiros evangelhos pelo pesquisador alemão J. J. Griesbach, em sua obra Synopsis evangeliorum [Sinopse dos evangelhos], publicada em Halle, em 1776. com efeito, Mateus, Marcos e Lucas têm semelhanças e diferenças, a ponto de se tornar possível imprimi-los em três colunas e com uma visão simultânea (syn – hopsis) verificar concordâncias e divergências”.[18] 

            Desta forma temos uma visão conjunta dos três evangelhos, uma visão simultânea (syn +  hopsis  =  syn-hopsis). 

2.2.1 - Sinóticos – semelhanças 

            Verifica-se assim que Marcos, Mateus e Lucas têm basicamente uma mesma estrutura, cronologia e geografia.

Há grandes semelhanças e podemos destacar blocos distintos de capítulos para o início da vida pública de Jesus após o batismo, para o ministério de Jesus na Galiléia, para o itinerário que Jesus fez da Galiléia até Jerusalém e a atividade de Jesus na própria Jerusalém.

Assim temos:

 

 

Acontecimento

 

 

Mateus

 

 

Marcos

 

 

Lucas

 

01

Jesus inicia vida pública após o batismo

3,1 –  4,11

1,1-13

3,1 –  4,13

02

Ministério de Jesus na Galiléia

4,12 – 18,35

1,14 –  9,50

4,14 –  9,50

03

Início da pregação

4,17 - começou a pregar...

1,14 - proclamando

o evangelho...

 4,14 - ensinava nas sinagogas...

04

Primeiro milagre

8,1 – cura de

um leproso

1,21 – cura de um endemoniado

3,33 – cura de um endemoniado

05

 

Caminhada de Jesus

da Galiléia até Jerusalém

19 – 20

10

9,51 – 19,27

06

Jesus em Jerusalém

21 – 28

11 – 16

19,28 – 24,53

            Assim observamos no quadro acima que Mateus e Marcos dão grande destaque para a atividade de Jesus na Galiléia e que Lucas, por sua vez, destaca a caminhada de Jesus que parte da Galiléia até chegar em Jerusalém. A teologia lucana é voltada toda para Jerusalém.  

 2.2.2 - Sinóticos - diferenças 

            Conforme supra citado, encontram-se diferenças em blocos semelhantes nos três evangelistas sinóticos, por exemplo: 

            - Os relatos da infância:        Marcos não tem;

Mateus narra dentro de uma perspectiva masculina, dando ênfase ao papel de José;

Lucas faz seu relato dentro de uma perspectiva feminina salientando a figura de Maria. 

            - As bem-aventuranças:   Marcos não tem;

                                                Mateus relata oito bem-aventuranças (Mt 5,1-12);

Lucas menciona apenas quatro bem-aventuranças (Lc 6,20-23). 

- Genealogia:                          Mateus remete até Abraão fazendo três grupos de 14 gerações (Mt 1,1-17);

Lucas relaciona setenta e sete nomes chegando até Adão (Lc 3,20-38). 

- Jesus ressuscitado:            Marcos e Mateus na Galiléia ao passo que Lucas em Jerusalém. 

            - Parábolas da misericórdia:             somente em Lucas (Lc 15). 

Devido às datas de composições de seus evangelhos também fica patente a diferença quanto ao número de versículos que cada evangelho sinótico contém: 

-          Marcos totaliza 678 versículos; 

-          Mateus totaliza 1.068 versículos; 

-          Lucas totaliza 1.149 versículos. 

Quanto mais distante a data de composição de um escrito evangélico do Jesus histórico, mais elaborado é este evangelho podendo observar um desenvolvimento maior quanto a reflexão teológica dos acontecimentos relatados.

3 - O Evangelho Segundo Marcos 

Até o século XIX o Evangelho segundo Marcos estava no esquecimento, um pouco deixado de lado. Os Padres da Igreja não tecem nenhum comentário sobre o Evangelho segundo Marcos. 

Em 1943 com a “Divino Afflante Spirito”[19]  o Evangelho Segundo Marcos toma sua importância. Pode-se formular uma pergunta: quais são as razões para este aparente “esquecimento” do Evangelho de Marcos? 

As razões são as seguintes: 

Pensava-se que o Evangelho de Marcos era uma síntese das atividades de Pedro, pois Pedro é uma figura com bastante destaque neste Evangelho, sendo descrito como uma pessoa sem mácula, é mostrado em Marcos como uma pessoa ideal. 

Até o Concílio Vaticano II[20] acreditava-se que o Evangelho segundo Marcos era uma síntese do Evangelho segundo Mateus, e até este Concílio não se tinha a divisão das leituras dos Evangelhos nas liturgias dominicais como temos no presente (ano A, B e C). 

A posição atual: 

Hoje se sabe que o Evangelho segundo Marcos é o Evangelho mais antigo, foi o primeiro a ser escrito e é o mais próximo do Jesus “histórico”. 

Os escritos de Marcos serviram de fonte para os Evangelhos segundo Mateus e Lucas. 

3.1 - Autor 

            O autor do evangelho sinótico mais primitivo é identificado pelo nome de Marcos que tem inúmeras citações nos Evangelhos e no livro dos Atos dos Apóstolos. Assim temos: 

            - At 12,12:       identifica Marcos com o cognome de João Marcos;[21] 

            - At 15,37 e Cl 4,10:    Marcos – ou João Marcos – primo de Barnabé; 

- Mc 14,51-52:            aparece um relato único em que fala de um jovem que foge nu após uma tentativa de prisão (?), deixando para trás um lençol que o envolvia; “muitos comentadores entenderam que este jovem é o próprio evangelista.”[22]

3.2 - Data 

            O evangelho de Marcos é o mais primitivo e sua redação deve ter ocorrido por volta do ano de 65 d.C. aproximadamente, e provavelmente em Roma, pois utiliza muitas expressões latinas, chegando mesmo a nomear uma moeda de uso corrente em Roma (Mc 12,42: “quadrante”). 

3.3 - Destinatários 

            É unânime que os destinatários do escrito de Marcos deve ter sido a comunidade de Roma devido aos inúmeros latinismos utilizados. 

3.4 - Visão geral 

            O Evangelho Segundo Marcos é composto por 16 capítulos e apresenta a seguinte visão geral: 

- Capitulo 1, 1-15:             parte introdutória, onde o objetivo de Marcos é apresentar Jesus como o Filho de Deus; 

- Capítulo 1,16 até 8,26:    primeira parte do Evangelho de Marcos que consiste em  apresentar o que é o Reino de Deus e o que se deve fazer para participar deste Reino. Há uma catequese de Jesus junto ao povo; 

- Capítulo 8,27 até 13,37:   segunda parte do Evangelho de Marcos e neste bloco se encontram os anúncios da paixão com uma catequese dirigida aos discípulos; 

            - Capítulo 14 até 16:        parte final onde relata a paixão, morte e ressurreição de Jesus.

 3.5 - Alguns aspectos literários 

            Dentre as características do Evangelho de Marcos destacam-se: 

- é o relato que tem a linguagem mais simples dos demais evangelhos; 

- Marcos utiliza poucas expressões ou vocábulos da língua hebraica, e quando usa procura explicar  seus significados em virtude da compreensão de seus destinatários (Mc 3,17; 5,41; 7,34; ...); 

- também tendo em vista seus destinatários Marcos usa poucas citações do Antigo Testamento e procura amenizar a relação com os judeus; 

            - etc. 

3.5.1 - Humanidade de Jesus 

            O Evangelho de Marcos tem como finalidade principal mostrar Jesus como o Filho de Deus (Mc 1,1; 15,39), mas é o evangelho que salienta com mais ênfase a natureza humana de Jesus. Assim, podemos verificar uma série de sentimentos humanos de Jesus que Marcos salienta: 

- Mc 6,34:              “Assim que ele desembarcou, viu uma grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles, pois estavam como ovelhas sem pastor.” 

- Mc 7,34:               “Depois, os olhos para o céu, gemeu, e disse: ‘Effatha’ que quer dizer ‘Abre-te’ “.; 

- Mc 10,21:             “Fitando-o, Jesus o amou e disse: ‘Uma só coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me’ “.; 

- Mc 11,15:              “(...) E entrando no Templo, ele começou a expulsar os vendedores e os compradores que lá estavam...”; 

- Mc 14,33:              “E, levando consigo Pedro, Tiago e João, começou a apavorar-se e a angustiar-se”.; 

            - etc.

 3.5.2 - O segredo messiânico 

            É singular do texto evangélico de Marcos a temática do “segredo messiânico”; este tema não é abordado por nenhum dos outros evangelistas. No que consiste este segredo?

            Após cada ação de Jesus, nos milagres, ele recomenda às pessoas que vão se apresentar aos sacerdotes, que eram as pessoas que deveriam atestar a cura, mas proíbe que revelem que foi ele o autor de tal feito. Até mesmo quando Jesus expulsa demônios (Mc 1,25.34; 3,11s), os proíbe de revelar sua identidade divino-messiânica.

            A explicação para esta recomendação é a seguinte: no conceito e mentalidade da época a palavra messias, tinha também a conotação de um “ungido” de Deus para efetuar a libertação do jugo romano, dando um caráter político-social para a messianidade de Jesus. Além disto, os contemporâneos de Jesus, incluindo seus adeptos não entendiam que Jesus deveria sofrer a morte na cruz, causando assim confusão. Ora, que messias é este que sofrerá e morrerá na cruz? A reflexão final só é elaborada e compreendida após a experiência da ressurreição de Jesus. 

3.5.3 - Aparições de Jesus Ressuscitado 

            O trecho final do Evangelho segundo Marcos – Mc 16,9-20 – apresenta certa dificuldade quanto a autoria atribuída à Marcos. Este bloco é um texto composto posteriormente ao corpo do referido evangelho, tendo sua datação aproximada por volta do ano 150 d.C.. Trata-se de um acréscimo que podemos classifica-lo como epílogo do texto. 

A Bíblia de Jerusalém, no início da nota explicativa para este trecho aborda esta questão: 

“O trecho final de Mc (vv. 9-20) faz parte das Escrituras inspiradas; é tido como canônico. Isso não significa necessariamente que foi escrito por Mc. De fato, põe-se em dúvida que esse trecho pertença à redação do segundo evangelho. (...)”. 

            A temática deste epílogo é um resumo sobre as aparições de Jesus ressuscitado que estão nos outros evangelhos canônicos. Desta forma temos as seguintes relações: 

            - Mc 16,9-10  ||  Jo 20, 11-18:            aparição a Maria Madalena; 

            - Mc 16,11-12  ||  Lc 24,13-35:           aparição aos Discípulos de Emaús; 

            - Mc 16,14  ||  Jo 20,19s:                    aparição aos Onze e demais Discípulos; 

            - Mc 16,15  ||  Mt 28,18-20:                aparição aos Onze na Galiléia; 

            - Mc 16,19  ||  Lc 24,50-53:                ascensão de Jesus. 

4 - O Evangelho Segundo Mateus 

            Na ordem dos textos, as Bíblias trazem o Evangelho Segundo Mateus como o primeiro escrito do Novo Testamento ainda que o mesmo não seja o escrito primitivo. Por que isto ocorre? 

            Até o Concílio Vaticano II (1962-1965) o Evangelho de Mateus é o texto mais utilizado pela Igreja, o mais comentado desde o inicio do cristianismo pelos Padres da Igreja. Esta preferência deve-se ao fato de que neste evangelho se encontram alguns temas em que a Igreja se identifica imediatamente: 

- Mt 5,1-12:                 Desde o início do cristianismo a comunidade eclesial dá grande valor ao trecho das bem-aventuranças reconhecendo neste relato um tipo de “carta magna” para o agir do cristão; 

- Mt 5,17:                     A relação valorizativa de Jesus com o Antigo Testamento onde ele, Jesus, não vem revogar a Lei ou os Profetas. A Igreja dá importância a toda Bíblia com seus dois grandes blocos.  

            - Mt 16,13-20:             A profissão de fé e o primado de Pedro; 

- Mt 18:                        A Igreja valoriza os segmentos dentro do capítulo 18 de Mateus por entender que aí se encontram temas importantíssimos para a convivência eclesial: 18,1-4: quem é.o maior; 18,5-11: cuidado com o escândalo; 18,12-14: a ovelha desgarrada; 18,15-18: a correção fraterna; 18,19-20: a oração em comum; 18,21-35: o perdão das ofensas. Este capítulo pode ser encontrado com o título de “discurso eclesiástico”.[23] 

4.1 - Autor 

            Hoje em dia é discutível a identificação do Evangelho de Mateus com o coletor de impostos que é relatado no próprio evangelho de Mateus, bem como por Marcos e Lucas (Mt 9,9  ||  Mc 2,13-14; Lc 5,27-28). 

            O estudioso Wilfrid Harrington aborda esta questão trazendo informação e questionamento sobre o possível autor deste evangelho: 

“A tradição unânime da igreja primitiva é de que Mateus, um dos Doze, foi o primeiro dos quatro evangelistas a escrever um evangelho, e que ele escreveu em aramaico. Todavia, o evangelho de Mateus, como nos chegou às mãos no Novo Testamento, foi escrito em grego; não é uma tradução. A relação entre o tradicional escrito aramaico e o evangelho posterior é obscura. Mateus pode ter sido o autor da obra aramaica; é-nos impossível dar o nome do autor do evangelho grego. Por questão de conveniência ele continua a ser, em nossas referências, o evangelho de Mateus.” 

            Ainda como causas para esta dúvida sobre a autoria é que a linguagem e estrutura de teologia, pensamento, etc. é muito bem elaborado levando-se a acreditar que o autor deste evangelho deveria ser alguém letrado na escritura judaica, talvez um rabino, ou doutor da Lei. Ora, os publicanos não eram pessoas que tinham esta cultura, eram quase semi analfabetos e sabiam apenas fazer contas em função de sua atividade de coletor de impostos.

            De qualquer forma, conforme afirmado acima, a tradição atribui àquele coletor de impostos a autoria do Evangelho de Mateus.

            O nome Mateus é de origem hebraica (“Mathai”) e significa “dom de Deus”. 

4.2 - Data de redação 

            A data de redação do Evangelho Segundo Mateus é fixada pela maioria dos estudiosos por volta dos anos 80 d.C. até 90 d.C. baseando-se no interesse do autor em salientar uma estrutura de vida eclesial, o que deve levar a estes anos aproximados indicando uma data relativamente tardia. 

4.3 - Destinatários 

            A análise do texto de Mateus autoriza a afirmação de que o texto foi escrito para uma comunidade de origem judaica pois é uso comum numerosas citações e correlações com os textos da Tanak (a Bíblia Hebraica, que é composta por três partes distintas: a Torá (Lei), os Nebiim (Profetas) e o Ktuvim (Escritos). 

            A maioria dos estudiosos, baseando-se na data de composição, coloca como local provável de redação a cidade de Antioquia, ainda que São Jerônimo (347-420 d.C.) defenda a idéia de local de composição a Palestina tendo em vista os destinatários. 

4.4 - Visão Geral

            O texto de Mateus apresenta o seguinte esquema: 

            - Mt 1-2:          Prólogo           -           narrativa da infância; 

            - Mt 3-7:                                -           O Reino aparece; 

            - Mt 8-10:                               -           Missão salvadora de Jesus; 

            - Mt 11-13:                              -           O Reino escondido; 

            - Mt 14-18:                              -           O Reino se desenvolve; 

            - Mt 19-25:                              -           A caminho da Paixão; 

            - Mt 26-28:                              -           Paixão e ressurreição 

4.5 - Alguns Aspectos Literários 

            Mateus insere Jesus em conexão com a História de Israel, para isso usa de alguns artifícios: 

4.5.1 - Genealogia 

            Com a finalidade de mostrar Jesus conexo com a história do povo hebreu a genealogia de Mateus fala claramente que Jesus é Filho de Davi e de Abraão (patriarca de Israel) passando a narrar a genealogia (Mt 1,1-17). 

4.5.2 - Jesus, novo Moisés 

            Para os judeus a parte principal da Escritura Hebraica é a Torá, que tem por autor o próprio Moisés. Mateus coloca assim a atividade de Jesus em 10 partes que contém 5 discursos e 5 narrativas, salientando que Jesus é “o novo Moisés”. 

- INTRODUÇÃO (1-2) – Cunho masculino com destaque para a figura de José; 

1 – NARRATIVA (3-4) 

2 – DISCURSO (5-7) – O Sermão da Montanha; 

3 – NARRATIVA (8-9) – 10 milagres; 

4 – DISCURSO (10) – Missionário 

5 – NARRATIVA (11-12) – Jesus é rejeitado por Israel; 

6 – DISCURSO (13) – As parábolas do Reino; 

7 – NARRATIVA (14-17) – Fundamentos da Igreja, com destaque para 16,13-26. 

8 – DISCURSO (18) – O chamado “Discurso Eclesiológico”; 

9 – NARRATIVA (19-23) – A crítica aos grupos judaicos; 

10 – DISCURSO (24-25) – Temática do discurso é escatológico; 

- EPÍLOGO (26-28)    -           A  Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. 

            Neste paralelismo entre Moisés e Jesus, Mateus coloca no relato da infância a ameaça de morte que Jesus também sofre, a ida para o Egito, e o retorno no tempo oportuno (Mt 2,13-23).

4.5.3 - Jesus, A Lei e os Profetas

            Mateus valoriza o texto bíblico hebraico mencionando que Jesus não vem revoga-lo (Mt 5,17), mas dar pleno cumprimento dele. 

4.5.4 - Jesus: o Deus conosco 

            Mateus utiliza referencias escrituristicas judaicas, por exemplo Is 7,14, falando que Jesus é o Emanuel – Deus Conosco (Mt 1,23). 

4.5.5 - O Reino dos Céus 

            Aquilo que os outros evangelistas chamam de “Reino de Deus”, em Mateus é chamado de “Reino dos Céus”, obedecendo o costume judaico-religioso de não pronunciar, nem utilizar o nome de Deus, que é sagrado e não pode ser pronunciado de maneira alguma.

INFÂNCIA – 3 MOMENTOS: 

4.5.6 - A “Eklesia” 

            De todos os evangelista somente Mateus é quem usa o termo grego “eklesia”  (Mt 16,18; 18,17) para se referir á comunidade dos seguidores de Jesus – a Igreja. 

Assim, o Evangelho segundo Mateus é o que utiliza maiores elementos semitas tendo em vista anunciar “o evento Jesus Cristo”. Este artifício quer dar autoridade perante os judeus e entre aqueles recém convertidos oriundos do judaísmo. 

5 - O Evangelho Segundo Lucas 

5.1 - Autor 

            Há algumas idéias sobre o autor do terceiro evangelho canônico. 

            É certo pelos exegetas que o autor do terceiro evangelho – Lucas – não fez parte do grupo dos Doze Apóstolos. Outros exegetas propõem a idéia de que Lucas possa ter feito parte do grupo dos setenta e dois discípulos enviados em missão (Lc 10,1-20). Admitindo-se esta hipótese há um problema que não pode ser desprezado: o evangelista Lucas não identifica nenhum dos setenta e dois discípulos. O relato da missão dos setenta e dois discípulos foi colocado para salientar a característica da universalidade de seu evangelho. 

            Lucas é mencionado nas viagens do Apóstolo Paulo – a partir da segunda viagem – e aparece como uma espécie de “secretário” do Apóstolo dos Gentios (At 15, etc.). “Lucas aparece como amigo e companheiro de Paulo em Cl 4,14; 2Tm 4,11; Fm 24”.[24] 

            É comum a idéia de que Lucas tenha sido médico e esta informação pode ser corroborada verificando-se os relatos de milagres em que Lucas dá detalhes sobre as doenças quando ocorrem os milagres. 

            Uma antiga tradição oriental afirma que Lucas teria sido pintor e que foi o primeiro a retratar o rosto de Nossa Senhora. Tal afirmativa é de difícil comprovação.    O que é certo é que Lucas pode ter consultado a própria Mãe de Jesus para compilar seus relatos da infância, ou mesmo ter se servido de uma tradição oral que já existia. 

O Evangelho Segundo Lucas é o único caso no Novo Testamento[25] em que se tem dois Livros com um só autor[26]: tanto o Terceiro Evangelho Canônico e o Livro dos Atos dos Apóstolos atribui-se a compilação a Lucas. 

Fácil verificar esta ligação, pois o final do Evangelho Segundo Lucas é igual ao inicio do livro dos Atos dos Apóstolos (Lc 24,51 || At 1,9.12[27]), além dos dois relatos se dirigirem inicialmente ao mesmo destinatário, identificado como “Teófilo” (Lc 1,3 || At 1,1). Trata-se de dois escritos interligados em que se tem uma só obra em dois volumes e não é possível entender plenamente um livro prescindindo do outro. 

O Evangelho Segundo Lucas tem características próprias de uma cultura helenista (estilo, mentalidade, cultura, vocabulário, gramática, etc.). 

5.2 Data de redação 

            A fixação de datas para a composição dos textos bíblicos é sempre um problema sério, pois não é possível precisar a gênese dos escritos, podendo somente ser atribuídas datas aproximadas. O relato de Lucas não foge a regra geral e é estimada a composição “nas proximidades do ano 80 d.C. – se foi composto antes ou depois desta data, isso é impossível determinar.”.[28] 

5.3 - Destinatários 

            Os destinatários do relato de Lucas são certamente os gentios. Por conta do publico alvo Lucas evita, coerentemente, muitos temas ou assuntos que poderiam parecer, de modo excessivo, especificamente judaicos. 

5.4 - Exclusividade  de Lucas 

Encontramos em Lucas uma série de narrativas importantíssimas e que só aparecem neste Evangelho: 

                        - a visita de Maria para Isabel e o “Magnificat”:             Lc 1,39 – 56; 

                        -  a apresentação de Jesus no Templo:                        Lc 2, 22 – 24; 

                        - a missão dos setenta e dois discípulos:                      Lc 10,1; 

                        - a parábola do bom samaritano:                                 Lc 10,29 – 37; 

                        - a parábola do filho pródigo:                                     Lc 15,11 –32;                        - a parábola do fariseu e o publicano:                    Lc 18,9 – 13; 

                        - visita a Zaqueu:                                                   Lc 19,1 – 10; 

                        - os discípulos de Emaús:                                       Lc 24,13 – 35; 

É próprio ainda de Lucas as temáticas teológicas: 

                        - da misericórdia; 

                        - da ênfase do feminino, salientando o protagonismo da mulher; 

                        - do universalismo da salvação; 

                        - da ênfase pneumatológica (do Espírito Santo)