POR UMA ÉTICA PLANETÁRIA

Artigo produzido por Mario Antonio Betiato, professor de Teologia da PUCPR. Para o debate sobre Ecologia Planetária
errado

Para salvar este artigo no seu computador, clique aqui

1. À GUISA DE INTRODUÇÃO

O universo não é estático. É dinâmico e está em movimento sempre. Tudo o que existe, tudo o que aparece, o fenomenológico da vida, é energia que se distribui em distintas fases de identidade. A mais complexa é a matéria, composta de partículas, átomos e componentes químicos e a mais simples é o espírito, que é puro, ainda não bem entendido, e não aceito pela racionalidade da ciência moderna, por não ter objeto definido para ser estudado pelos métodos da ciência experimental. Porém, nós sustentamos que o espírito é o ponto de chegada de tudo.

A vida, no sentido largo (não somente a vida humana), é um jogo de relações. É caótica a vida. Entretanto, para Ilya Prigogine, o caos, não é "caótico", mas regenerativo, criativo (eterno devir). O caos produz a complexidade, e dela surge a vida, que possui em seu bojo os mistérios que a ciência moderna, por sua própria natureza, tende a excluir.

O que podemos afirmar, hoje, cientificamente e filosoficamente, é que o universo é uma coisa só. Surgiu num ponto único, quando houve uma explosão e começou então a existir o tempo e o espaço a quinze bilhões de anos atrás. Antes dessa explosão havia o inefável (Deus?). A ciência possui hoje a prova empírica desta explosão (big bang), sem ter noção, nem preocupação com o que havia antes disso. O eco da explosão foi capturado por aparelhos tecnológicos de alta precisão. Daquela explosão nasceram as milhares de galáxias e também o sistema solar, onde o sol, comparativamente, e dentro do "todo", pode ser entendido como uma estrela periférica, de terceira categoria, quase imperceptível.

A terra, nossa casa, possui quatro bilhões e quinhentos milhões de anos e é um super-organismo vivo no qual todas as partes se inter-relacionam e são interdependentes. O ser humano inteligente surgiu a quinze milhões de anos atrás. É coisa recente. Se compararmos, com finalidade didática, toda a evolução do universo, e distribuirmos ela num período de um ano, desde o big-bang, o homo sapiens (ser humano inteligente), nasceu nos últimos quinze segundos e, Jesus, nos últimos quatro segundos do ano em questão. Quando o ser humano surgiu na face da terra, noventa e nove por cento de todas as criaturas já existiam, nós fazemos parte, portanto, de uma categoria de novos moradores, praticamente os últimos que chegamos, e nos julgamos os donos do mundo, desrespeitando os antigos moradores, os mais velhos, toda a natureza que se construiu e tornou-se vida, antes de nós.

Esse antropocentrismo deve ser superado. Este domínio voraz que temos da natureza, sustentado por filósofos modernos com o argumento que podemos extrair da mãe terra tudo aquilo que nos torna mais confortáveis e poderosos, esse domínio muitas vezes assassino, poderá ser suicida, pois o nosso planeta precisa, agora, de cuidados, como recomenda a ONU na famosa Carta da Terra: "A escolha é nossa: formar uma aliança global par cuidar da terra e uns dos outros, ou arriscar nossa destruição e a da diversidade da vida"

O ser humano (bela informação), na sua gênese, na ecologia planetária, surgiu junto com as flores e se alimentava de flores, vivendo nas copas das árvores para não ser comido pelos dinossauros. Então, um "meteoro" acabou com os dinossauros. Este pequeno animal quadrúpede (nós), então, desceu da copa das árvores, evoluiu, tornou-se homo erectus, bípede (começou a andar sobre duas pernas), criou cultura e tudo o que temos e vemos.

Em nosso cérebro se aloja tudo o que armazenamos desde quando nos tornamos seres racionais (há quinze milhões de anos). Porém, nós lembramos somente aquilo que passa pelos sentidos, pelas sensações, aquilo que é racional. É por isso que a ciência moderna é fria, sem sentimentos, sem espírito. No cérebro humano se aloja a fonte de Deus, na qual somente os místicos chegam. É o mistério. Racionalmente é impossível chegar ao mistério, porque a experiência de Deus está para além da razão. É antropologicamente anterior a isso, e teologicamente inefável.

Entretanto, o ser humano se acha dono (dominus) do universo. Levamos muito ao pé da letra a tradução latina do texto do livro do gênesis "dominai". Dominamos tanto que estamos acabando com o planeta, como se fossemos os donos da terra. É bom saber que o planeta terra sobrevive por si mesmo, independentemente de quem o habita. Ninguém controla o planeta porque ele tem vida própria. Os dinossauros, para dar um exemplo, tiveram hegemonia e poder neste planeta terra durante cento e dez milhões de anos. Hoje, o que resta deles são apenas combustíveis fósseis que usamos para petróleo e derivados, sem nem nos darmos conta disso. E o ser humano? Com toda a nossa inteligência, dominamos o planeta há apenas quarenta mil anos, e ousamos dizer que somos os donos. Não seria isso uma demasiada prepotência? O fato é que somos uma minoria frágil. Segundo a ciência existem no planeta sete bilhões de insetos para cada ser humano e insetos que não evoluíram na lógica evolutiva nossa, mas que são muito anteriores a nós. Onde está nossa superioridade?

Precisamos escutar mais, compreender que somos filhos das estrelas e que somos, no planeta terra, as criaturas mais frágeis, porque somos os mais novos. Então precisamos ouvir, obedecer mais (ob audiere). Ao invés de donos deveríamos ser jardineiros, aqueles que cuidam, plantam, cultivam, colhem e embelezam. Entretanto, nos últimos quinhentos anos, fizemos o contrário: pisoteamos as flores do jardim, aprisionamos os pássaros, contaminamos a água, sacrificamos o paraíso, destruímos a nossa casa, tudo em nome do pseudo progresso capitalista que nos enfeitiçou.


2. RAZÕES PARA UMA NOVA ÉTICA PLANETÁRIA

A crise ecológica precisa de uma nova ética. As políticas ambientais não bastam porque podem ser seguidas ou não, dependendo do país, e podem mudar de acordo com as mudanças de governos, de ideologias. As políticas ambientais não chegam a produzir cultura, não chegam na alma das pessoas, são legalistas e na maioria das vezes arbitrárias e punitivas. A nível planetário, uma ética de resultados precisa migrar da norma (ética normativa) para princípios (ética de princípios).

As causas profundas da crise ecológica são poucas, porém radicais: diminuição das reservas ecológicas não renováveis, acúmulo de gases que aquecem o planeta, aumento do consumo e da desigualdade social.

Segundo dados do PNUD, em cinqüenta anos, o consumo aumentou seis vezes, principalmente o de produtos poluidores (com exceção da África que o consumo está diminuindo um por cento ao ano), com o devido custo da degradação ambiental. Vejamos os dados objetivos:

- Vinte por cento dos mais ricos consomem oitenta por cento dos produtos e o vinte por cento dos mais pobres consomem um por cento dos produtos.

- O volume de lixo produzido em países industrializados quadruplicou nos últimos cinqüenta anos, bem como o consumo de papel.

- No tempo dos dinossauros, a extinção das espécies era uma a cada mil anos hoje é de três espécies por hora.

- Apenas 0,1 por cento da renda mundial seria suficiente (12 bilhões de dólares) para suprir as necessidades básicas nutricionais dos pobres do mundo. É o que os europeus gastam por ano para alimentar cães e gatos, ou os americanos em cosméticos.

- Se o consumo da humanidade fosse igual a dos Estados Unidos precisaria existir quatro planetas. Em dezoito dias haveria um blakout geral, um colapso total do planeta.

É consenso geral dos sociólogos que os principais pilares que sustentam o capitalismo hoje são quatro e estão ordenados assim: ciência, técnica, indústria e lucro. Em ordem contrária, na ponta está o lucro que emerge da industria que precisa da técnica para funcionar e esta tem como mãe, a ciência. O capitalismo no estágio atual se tornou uma entidade autônoma e não necessita muito do ser humano para sobreviver sem problemas. Dois bilhões de pessoas no planeta são o suficiente para fazer funcionar o sistema que gera lucro. O restante é excedente, podem muito bem ser substituídos por máquinas.

A ONU prevê que no ano 2050 seremos quinze bilhões de seres humanos. A reprodução da humanidade compromete a reprodução da terra, isto é, o planeta, não consegue dar conta de tanta gente e de tanto consumo e a reprodução do capitalismo compromete a reprodução da humanidade, pois o sistema ameaça a vida. Esta é a grande complexidade da qual fala Prigogine, já citado.

A NECESSIDADE DO ENFRENTAMENTO ÉTICO DA CRISE PLANETÁRIA

Há uma necessidade de uma nova ética na ciência moderna que comanda hoje todas as esferas da vida. A ciência que se diz neutra, está atrelada a ideologia capitalista, é uma ferramenta do sistema. No capitalismo não há um projeto global, a única referência é o lucro a qualquer custo.

Do ponto de vista da Ética filosófica, é então urgente pensar que somos pilotos temporários de uma nave espacial chamada Planeta Terra e com o poder de decisão sobre nós mesmos. No livro Por uma Moral Planetária o autor sustenta que quinze milhões de anos depois da morte dos dinossauros os homens estão sendo condenados por cometerem a mesma falha: destruir a casa, crescer demais, aumentar demais. É preciso então parar de crescer em todos os níveis, pois a terra, nossa casa, é limitada e finita e pela lógica, o crescimento ilimitado não cabe num mundo limitado. Em outras palavras, se continuarmos a viver, nos próximos trinta anos, como vivemos nos últimos trinta anos, poderemos ser assassinos dos nossos netos. É preciso garantir a vida. Que o ser humano, no mínimo viva. Viver bem é uma questão que, infelizmente, vem depois.

É preciso "morrer" pelo planeta. Já morremos pelas ideologias, pelos nacionalismos, pelas religiões. Agora é a hora de morrermos pela nossa casa, pela nossa vida. Para isso é preciso mobilizar a vontade coletiva, agora. Se esperarmos reunir todas as provas, via pesquisas científicas, estaremos mortos e é bom levarmos em conta que a terra é pequena e não há outro lugar para refúgio. Uma catástrofe atingiria a todos. Somente temos um planeta a nossa disposição.

4. ALGUNS PRINCÍPIOS BÁSICOS PARA UMA ÉTICA PLANETÁRIA

Precisamos dizer sempre "não" à morte coletiva. É natural que morra indivíduos de espécies, porém, as espécies não podem desaparecer. As espécies morrem coletivamente por razões as quais todos somos coletivamente cúmplices. Não há um culpado. Existem causas e as principais são:

- Empobrecimento do solo

- Superpopulação

- Desmatamento desordenado

- Poluição da água potável

- Resíduos nucleares

- Superconcentração de pessoas no mesmo espaço e ao mesmo tempo

Lidar com tamanhos desafios requer uma nova Ética, para além das punições, das normas e das políticas ambientais. Ética planetária é um empreendimento coletivo que deverá alcançar a consciência de todos os humanos.

Outro princípio é o de que devemos pensar globalmente e agir localmente. Não existem ações globais. As ações são sempre localizadas, pontuais, o que deverá existir é um pensamento global, uma nova consciência ética planetária. As ações são decorrentes dos conceitos. Por outro lado, ações localizadas sem a consciência global também poderão não ser eficazes. É preciso que em nossas ações haja uma consciência de que tudo está interligado, que a ecologia não é algo estranho a nada, que salvar a parte é salvar o todo, e pensar no todo é agir nas partes.

Um terceiro princípio básico é que as necessidades da pessoa são as necessidades do planeta e as necessidades do planeta são as necessidades das pessoas. Tanto quanto qualquer ser humano, o planeta precisa de cuidados, de água, de nutrição, de respeito. Há uma cumplicidade fraterna entre os moradores da casa e a casa.

Por fim uma significativa expressão bíblica que expressa a relação que precisa ser recuperada entre o ser humano e o cosmos é: "tire as sandálias porque este lugar é santo". Tirar as sandálias é muito mais do que ficar descalço. É despir-se do domínio, do poder, da soberba e render-se ao mistério e ao eterno. O ser humano, o último a chegar na evolução das espécies, não tem o direito de se apossar do planeta e submeter ele aos seus ilusórios caprichos capitalistas.

Para salvar este artigo no seu computador, clique aqui

Prof. Mario Antonio Betiato - 2006

 

Principais palavras relacionadas: Universos, Planeta terra, imagens da terra, globo, Oração do papa, oração cristã, oração santa, oração de nossa senhora, faculdade de teologia, teologia bíblica, teologia sistemática, mensagem de Deus, Teologia no Brasil, Filosofia política, Livros da bíblia, Estudo Bíblico, Evangelho de Lucas, evangelho de marcos, teologia pastoral,etc